Lista de Tópicos

 

Autismo

Comportamento, Desenvolvimento e Trato


            Quando
um casal decide ter o seu primeiro nado eles esperam que este seja amado e estimado e em troca eles sejam amados e estimados por ele. No entanto em cada 10,000 nascimentos 4 infantes nascem com dificuldades em se relacionarem desta maneira. Os sintomas típicos de crianças com perturbações autistas são a inabilidade de desenvolverem relações sociais com outras pessoas, a incapacidade em desenvolver habilidades comunicativas, e a grande dificuldade na capacidade de imaginar. Esta condição mental foi identificada e caracterizada por Kanner em 1943 e o termo autismo refere-se basicamente a comportamento de crianças que vivem num mundo de auto-absorção e que não tem contacto com outros indivíduos. Esta disfunção afecta mais rapazes do que raparigas em uma proporção de três para uma.

 

Comportamento

As crianças com este problema parecem que não dão grande importância quando são agarradas, arqueiam as costas para trás quando são levantadas aparentando não quererem ser tocadas. Não olham ou sorriem aos pais. Se estão doentes, magoados, ou cansados não procuram outras pessoas para lhes dar conforto. Quando jovens, não estabelecem relações sociais com outras pessoas da sua idade, e não conseguem manter contacto de olhar. A sua linguagem é anormal e algumas vezes não têm nenhuma. Eles repetem tudo o que é dito e muitas vezes referem-se na segunda ou terceira pessoa. Decoram palavras ou frases mas não conseguem usá-las na devida altura ou contexto. Aqueles que conseguem falar com alguma compreensão falam sempre acerca das suas preocupações sem ter em conta as dificuldades ou os interesses das outras pessoas. Muitas vezes interpretam a linguagem das outras pessoas literalmente mas sem acção. Por exemplo quando uma pessoa faz uma pergunta como "Dás-me o sal?" elas respondem "Sim" mas sem o fazerem.

Os autistas mostram também outros tipos de comportamento como por exemplo movimentos estereotípicos de bater palmas repetidamente, ou de andarem de trás para a frente durante longos períodos de tempo, ou de se agarrarem a um objecto, à sua textura ou de o mover de trás para a frente. Ficam ligados a um objecto e insistem violentamente de o levar para todos os sítios ou situações. Ficam preocupados em alinhar os seus brinquedos de uma certa maneira reagindo muito mal se estes ficarem fora do sítio ou se são prevenidos de corrigirem este alinhamento. Não fazem brincadeiras do tipo "fáz-de-conta" e não estão interessados em histórias de fantasia. Alguns tem habilidades isoladas muito boas como por exemplo multiplicar números muito rapidamente ou de desenhar objectos a rigor.

Mas a investigação feita nestas crianças já começa a amostrar algumas razões da causa deste degenero mental. Frith, Morton e Leslie (1991) sugerem que a dificuldade de socialização, as inabilidades de comunicação e a incapacidade de imaginação são derivadas de anomalias no cérebro que as impossibilita de desenvolverem uma teoria mental "Theory of mind". Quer dizer o/a autista é incapaz de prever e/ou explicar o comportamento de outras pessoas em relação aos seus estados mentais ou desejos. Portanto não conseguem ver ou entender coisas ou pensar pelos olhos de outras pessoas. Por exemplo Baron-Cohen, Leslie, e Frith (1985) fizeram o seguinte teste a dois grupos de sujeitos, um que mostrava tendências autísticas e um outro que não mostrava. As crianças eram expostas a um 'show' de marionetas na qual uma delas, a Sally, punha um berlinde num cesto e ia-se embora. Uma outra boneca, a Anna, tirava o berlinde do cesto e colocava-o numa caixa. Quando a Sally voltou para brincar com o berlinde, a pergunta posta pelo grupo de investigadores para as crianças que estavam a assistir ao show, era aonde a Sally ia procurar o berlinde? As crianças normais diziam no cesto pois estas compreendiam que a Sally ainda estava a pensar que tinha o berlinde no cesto. No entanto, 16 das 20 crianças do grupo autistas disseram que a Sally ia procurar na caixa. Isto, de acordo com os autores, queria dizer que estas crianças não eram capazes de compreender que as pessoas podem ter pensamentos diferentes daquelas que elas sabem ou pensam.

Desenvolvimento

Como em cima foi indicado Kenner aquando da identificação do autismo disse que este tinha a sua origem em condições biológicas. Mas poucos meses depois psiquiatras influentes em doenças mentais como Bettelheim (1967), indicavam que estes estados mentais eram aprendidos como qualquer outro comportamento. Eles baseavam as suas explicações em pessoas que estiveram dentro de campos de concentração na Segunda Guerra Mundial, pois estes mostravam comportamentos apáticos, introvertidos e desesperados que eles diziam eram semelhantes a condições autistas. Portanto para eles autistas eram o resultado de pais frios, insensitivos, distante e muito exigentes. Isto fez que durante algum tempo pais deste tipo de crianças não se manifestavam que tinham crianças autistas pois tinham medo que estas seriam retiradas das famílias.

Hoje existe um consenso entre investigadores, psiquiatras e psicólogos clínicos que este tipo de criança é devido a factores biológicos e que os pais de autistas devem receber ajuda e simpatia. Uma investigação por Cox, Rutter, Newman, e Batak (1975) demonstrou que os pais de jovens autistas são tão carinhosos, sociais e responsivos como qualquer outro tipo de pais. Mais, estes pais educam um ou mais crianças normais o que indica que se eles eram a causa de autismo os outros teriam que mostrar os mesmos sintomas autistas o que não fazem.

Existe presentemente um tipo de investigação que mostra muitos bons frutos de compreensão de como este problema se desenvolve. Entre 2% a 3% de irmãos/ãs de pessoas com autismo tem eles/as próprias este problema mental. como foi indicado na investigação de Bailey (1993). Esta figura pode parecer pouca mas é entre 50 a 100 vezes mais do que é esperado na população em geral que, como dissemos em cima, é de 4 crianças em cada 10,000.

Uma das fontes mais fortes que pode mostrar que a hereditabilidade pode ser a causa de autismo deriva de estudo de gémeos. Um estudo recente de Bailey, Le Couteur, Gottesman, Bolton, Simonoff, Yuzda e Rutter (1995), mostrou que gémeos unizigotos, que vem do mesmo ovo, mostram uma concordância de 96% em se tornarem autistas mais tarde em vida. No entanto aqueles gémeos que vem de dois ovos o número baixa para os mesmos valores encontrados na população geral. Portanto este projecto mostra que o factor genético em sujeitos que tem autismo pode ser um aspecto para futura investigação.

No entanto um outro tipo de investigação feita por Folstein e Piven (1991) em gémeos que vem de dois ovos mostrou que aquela criança que desenvolve autismo teve problemas obstétricos durante a gestação, e um outro estudo mais antigo por Chess, Fernandez e Korn (1971) indicou que mulheres grávidas que tiveram rubéola durante o período gestativo podem dar nados que desenvolvem autismo mais tarde. Portanto estes estudos indicam que deve haver uma componente de problemas de gestação em autismo. Mas quando? Um estudo por Strömland, Nordin, Miller, Akerstroom e Gillberg (1994) nos efeitos de droga Talidomida em mulheres grávidas pode-nos dar algumas pistas. Eles mostraram que todas as mães que tomaram esta droga durante o período de 20 a 24 semanas tiveram crianças autistas. Durante este período gestativo a parte que se está a desenvolver é aquela que se encontra entre o cérebro médio e o posterior chamado o tronco cerebral. Esta área controla primariamente reflexos visuais e reacções a estímulo de movimento, sensação a dor, atenção, movimento, dormir, activação de laboração e a tonicidade muscular (Carlson, 1999). Actividades bastante consistentes com os problemas que podemos ver em autismo.

Ultimamente a pergunta que se tem posto na investigação sobre autismo é porque é que anomalias cerebrais podem resultar em autismo? O que se sabe é que acidentes cerebrais na zona do tronco cerebral em adultos não resultam em comportamento autista como foi indicado por Happé e Frith (1996). Portanto, parece que o seu aparecimento se pode dever a problemas de desenvolvimento cerebral. Mas, no entanto, é preciso mais investigação para se poder confirmar este facto.

Trato

Se assim for o que se pode fazer com este tipo de crianças no seu desenvolvimento? Sasso em 1995 consegue identificar 30 programas de tratamento e sistemas educacionais para sujeitos que mostram problemas de autismo. No entanto a maioria destes programas ainda estão além de produzir resultados consistentes.

Mas isto não quer dizer que não se pode fazer nada com estas crianças. O primeiro passo a dar é estabelecer o que elas podem/querem e não podem/querem fazer. Este tipo de análise determina todo um comportamento que a família de autistas e os estabelecimentos de ensino podem fazer em relação ao autismo. Myles, Constant, Simpson e Carlson (1989) aconselham quatro áreas para analisar: motivação, demasiada selecção de estímulos, comportamento auto-estimulatório, e ecolalia.

Depois desta avaliação é aconselhável desenvolver uma prática de auto-aprendizagem que pode incluir todas as actividades que podem ajudar o autista a focar a sua atenção, a desenvolver actividades imágicas, aprender comportamentos e informação, hábitos de trabalho independente e aprendizagem incidental. Depois, estratégias que as crianças podem usar para encontrar solução de problemas ou de o acabar uma lida sem ajuda. Ao mesmo tempo é recomendado que os adultos que lidam com estas crianças executem uma avaliação do tipo de actividade funcional principalmente quando elas acabam de fazer as tarefas tais como se elas mordem alguma parte do corpo, ou gritam alto. Isto pode indicar, em particular nas crianças que tem dificuldade de se expressarem verbalmente, se elas compreendem o que estão fazer e se não tem dificuldades em realizar os trabalhos durante o treino.

Com o passar do tempo pode-se programar objectivos com estas crianças de maneira a que elas possam tomar mais conta de si próprias. Isto faz-se usando técnicas de prestação de serviços e de perguntar às crianças se gostou do trabalho ou da lida, se este foi difícil ou fácil, e o que gostaria de fazer no futuro se lhe dessem um trabalho semelhante.

Ao fim de um certo tempo é desejável fazer uma análise ecológica do comportamento como sugerido por Kamps, Leonard, Dugan, Boland e Greenwood (1991). Esta técnica examina o comportamento e os componentes do ambiente que suportam o comportamento das crianças. Por exemplo o comportamento dos autistas é analisado em relação ao que é exigido nas aulas, nos trabalhos que tem que fazer e no sítio aonde vivem. O objectivo é verificar e analisar o que é necessário fazer para que as crianças consigam obter os resultados pretendidos nas diversas situações. Depois é desenvolver intervenções que podem ajudar a aprendizagem daquilo que é desejado.

Existem diversas estratégias que uma pessoa pode usar com autistas. Talvez aquela que pode merecer mais atenção foi desenvolvida por Dalrymple (1995). Esta compunha-se de sete componentes: etiquetas em objectos de uso constante, delineação de bordas de actuação, horários visuais, apetrechos que podem comunicar comportamentos específicos, sinais de acabamento de tarefas, quadro de escolhas, e técnicas de espera. Este último talvez seja o mais difícil de implementar pois crianças com autismo não compreendem o conceito de espera. Portanto deve-se ensinar em sessões práticas e de acordo com diversas situações. É aconselhável usar uma outra criança sem autismo ou que perceba o que é esperar para servir de modelo à criança que está a aprender este tipo de comportamento. Pode-se também usar etiquetas ou objectos que indiquem à criança os momentos que ela deve estar à espera de outros.

Em conclusão, ter uma criança autista já não é tão penoso como a uns anos atrás. Já temos alguma indicação de como o problema se pode desenvolver e temos também estratégias de comportamento e cognitivas que podem ajudar este tipo de crianças a terem uma vida mais feliz. Os pais destas podem começar a ficar mais descansados que ter uma criança autista já não acarreta uma estigma que era outrora. Isto implica que o número de crianças com este tipo de problema venham a ser reconhecidos mais cedo o que pode traduzir em uma melhoria de como lidar com o autismo.

Já se pode dizer que actividades como comportamento agressivo, interacções sociais, comunicação e linguagem, auto-ferimento, auto-estimulação, e outros comportamentos excessivos, podem ser ensinados a serem controlados. Isto é sem duvida uma grande ajuda tanto para os pais destas crianças como educadores ou professores.

 

Bibliografia

Bailey, A. J., The biology of autism. Psychological Medicine, 1993, 23, 7-11.

Bailey, A.J., Le Couteur, A., Gottesman, I., Bolton, P., Simonoff, E., Yuzda, E., e Rutter, M., Autism as a strongly genetic disorder: Evidence from British twin studies. Psychological Medicine, 1995, 25, 63-77.

Baron-Cohen, S., Leslie, A. M., e Frith, U., Does the autistic child have a "theory of mind"? Cognition, 1985, 21, 37-46.

Carlson, N.R., Foundations of Physiological Psycholog. 1999, 4ed, Boston, USA: Allyn & Bacon:

Dalrymple, N.J., Environmental supports to develop flexibility and independence. No livro de K.A. Quill, Teaching children with autism: Strategies to enhance communication and socialization, 1995, Albany, N.Y.: Delmar.

Folstein, S.E., e Piven, J., Etiology of autism: Genetic influences. Pediatrics, 1991, 87, 767-773.

Frith, U., Morton, J., e Leslie, A. M., The cognitive basis of a biological disorder: Autism. Trends in Neuroscience, 1991, 14, 433-438.

Happé, F. e Frith. U., The neuropsychology of autism. Brain, 1996, 119, 1377-1400.

Kamps, D.M., Leonard, B.R., Dugan, E.P., Boland B., e Greenwood, C.R., The use of ecobehavioral assessment to identify naturally occurring effective procedures in classroom serving students with autism and other developmental disabilities. Journal of Behavioral Education, 1991, 1, 367-397.

Kanner, I., Austistic disturbances of affective contact. The Nervous Child, 1943, 2, 217-250.

Sasso, G.M., Choosing Instructional Strategies. Artigo apresentado na Midwest Educational Leadership Conference em Autism, 1995, Kansas City, MO.

Simpson, R.L., e Myles, B.S., Educating Children and Youth with Autism. 1998, Austin,USA: Pro-Ed.

Strömland, K., Nordin, V., Miller, M., Akerstroom, B., e Gillberg, C., Autism in thalidomide embryopathy: A population study. Developmental Medicine and Child Neurology, 1994, 36, 351-356.

 

Lista de Tópicos