Lista de Tópicos

 

A grafologia como um teste da sua personalidade: Até que ponto um psicólogo se pode confiar nessa análise.

 

Introdução

O uso da análise da escrita como método para identificação da personalidade das pessoas já é muito antigo. Existe documentação do tempo dos Gregos, como é o caso de Suetonius Tranquillus (120 AD), aonde são descritas as diversas peculiaridades das escritas de Octávio e Augusto. Aristóteles escreveu que "palavras faladas são os símbolos das experiências mentais e palavras escritas são os símbolos das palavras faladas. Como todos os homens não têm os mesmos sons de fala, portanto nem todos têm a mesma escrita". Este indicou também que existia uma correlação entre a escrita de cada pessoa e a personalidade. Independentemente, os Chineses fizeram a observação que existia uma ligação entre o carácter das pessoas e a escrita.

Mas só foi no começo do século dezassete que a análise da escrita se desenvolveu devido à publicação de um livro, "Escrita: a Chave à Personalidade" por um médico e professor de Filosofia Italiano, Camillo Baldi, que correlacionou diversos aspectos do carácter do ser humano com a escrita. Mais tarde, o seu sucessor, Crepieux Jamin, classificou as muitas características da grafologia em um sistema bastante compreensivo.

Entretanto, durante os 1890s na Alemanha, Dr. Ludwig Klages, um filósofo e grafólogo, aplicou a teoria de "gestalt" à grafologia, e avançou as teorias do ritmo e "nível da forma" que abriu significativamente a área da grafologia.

Max Pulver, um professor Suíço que leccionou grafologia na Universidade de Zurique, usou pela primeira vez a psicanálise na interpretação da grafologia. A sua linha de investigação foi também seguida por Ania Teillard que trabalhou como estudante com C.G. Jung por 20 anos e aplicou a sua Teoria da Tipologia (Extroversão e Introversão) à teoria da grafologia.

No entanto a palavra grafologia, que quer dizer o estudo científico da escrita, só foi usada em 1875 por um padre Francês Jean Hippolyte Michon. Ele foi a primeira pessoa que descreveu em uma maneira muito sistemática, as diversas características da personalidade das pessoas em relação aos diversos sinais gráficos da escrita.

Também Alfred Binet, que se pode considerar como sendo o pai do método da análise de inteligência, mais conhecido como o Quociente de Inteligência, era um grande defensor da análise da escrita e confirmou que certas características do carácter das pessoas eram reflectidas na escrita. Mais tarde, o psicólogo Francês, Pierre Janet (1859-1947) citou a análise da escrita como sendo "a ciência do futuro" e descreveu a escrita como sendo "um acto que deixa uma impressão. É o registo das sensibilidades do escritor". Alfred Adler, (1870-1937) escreveu que "A escrita é o movimento congelado …. A escrita aponta a maneira de mim para ti".

Portanto a Europa têm sido a principal líder na investigação e validação cientifica da Grafologia. Esta área tem sido estudada, investigada e ensinada em várias Universidades europeias. Na área da escolha de pessoal é usada em 7.9% nas companhias Inglesas, e em cerca de 80% nas companhias Francesas. Na Suíça a Grafologia é uma profissão encarada a um nível muito alto e é ensinada na Universidade de Zurique.

O Sistema Moretti

Hoje existem três tipos de grafologia. Uma derivada dos estudos e trabalho do Pe. Michon em cima descrita, que se concentra em sinais específicos da escrita como indicadores da personalidade de indivíduos. Uma germânica que se desenvolveu através do trabalho de Ludwig Klages em 1890, que é mais subjectiva e um tanto esotérica. Por último a escola Italiana que têm por pessoa principal o Pe. Franciscano Girolamo Moretti. Este sistema, também chamado o método Moretti, tem por base a apreciação global da escrita, que envolve não só uma análise de certos aspectos de cada letra, como no sistema francês, mas também a maneira como a escrita em um todo é feita e a sua direcção em frente, para cima ou para baixo. Foi este tipo de análise grafológica que o Rev. Pe. Sílvio Greggio, um especialista neste tipo de grafologia, apresentou no programa da comemoração do 20º Aniversário do Instituto Piaget - Viseu, com o título "A grafologia segundo o método de Girolamo Moretti - um contributo para a orientação profissional".

De acordo com o método Moretti a grafologia é a ciência experimental que a partir da expressão gráfica da pessoa que escreve, pode evidenciar a sua personalidade, as suas habilidades intelectuais, as tendências temperamentais, as aptidões profissionais, a constituição somática e as pré-disposições morbosas congénitas ou doentias.

Temos que também ter em consideração que a grafologia não é a mesma coisa que a caligrafia. Esta última é mais relacionada com a maneira como uma pessoa escreve as letras, enquanto que a grafologia relaciona-se com o estudo da reacções de cada indivíduo quando expressa na escrita aquilo que lhe vai na mente. Portanto, como evidencia a personalidade e as tendências dessa pessoa, o grafólogo pode orientar o indivíduo que o procura em relação aos diversos aspectos que preocupa a pessoa.

Para ser um grafólogo é essencial conhecer psicologia pois só assim ele ou ela pode identificar as diversos tipos de personalidade ou tendências do consultante. Mais, é necessário que a pessoa que anda a fazer análises grafológicas que saiba da existência de outros instrumentos psicológicos de maneira a que possa fazer uma apreciação global de todos os aspectos do indivíduo.

O sistema Morettiano clama que grafologia consegue identificar cinco componentes do ser humano. As suas habilidades intelectuais, o tipo de temperamento da pessoa, as suas aptidões profissionais, a constituição somática, e as pre-disposições morbosas.

Estas são utilizadas em quatro campos: no campo escolástico, no profissional, no matrimonial e no judiciário.

Na área escolástica ajuda as pessoas a acertar nas disciplinas que mais condizem com a personalidade do estudante. No profissional aconselha o indivíduo a acertar na melhor profissão para o qual ele/ela tem mais jeito e gosto. No aspecto matrimonial identifica a compatibilidade de cada pessoa e quais os aspectos que o casal pode ter problemas. Por último no campo judicial a grafologia analisada pelo sistema Moretti não só consegue tornar evidente as tendências agressivas de cada pessoa mas também acompanhar as modificações que cada indivíduo imprime na sua personalidade. Portanto ajuda o aconselhador e verificar se a pessoa com tendências criminosas consegue modificar o seu comportamento e até que ponto o consegue.

Normalmente, para se fazer uma análise grafológica é necessário uma pessoa escrever sobre um assunto qualquer numa página branca e sem linhas. Assim consegue-se ver as características grafológicas dessa pessoa que no sistema Moretti é assinalado pela dimensão geral de cada letra, a sua curvatura ou o seu ângulo, o seu tamanho, a sua pressão no papel, a direcção, quer dizer se é ascendente, linear ou descendente, o seu ritmo, lento ou corrido, e o espaço entre cada letra.

Criticismo

Um dos grandes problemas que a grafologia têm em relação aos testes psicológicos é a sua validade em conseguir identificar as naturezas psicológicas que reivindica. Até hoje a maioria das análises estatísticas feitas em projectos sobre grafologia têm uma tendência a serem bastante negativos. No entanto, um estudo feito por A. Jansen em 1973 comparou a análise de 2.250 escritas feitas por grafólogos profissionais e por uma outra feita por 6.000 pessoas sem conhecimento de grafologia. Este trabalho concluiu que as análises grafológicas eram mais correctas que incorrectas quando comparadas com outros testes psicológicos de projecção, como as manchas de Rorschach, ou o de Holtzman. No entanto, a fiabilidade de cada análise grafológica a nível pessoal de cada grafólogo era mais duvidosa. Uma característica que também se pode verificar em quase todos os outros testes de projecção.

No entanto a grafologia, como uma técnica para identificar o tipo de pessoa mais adequado para uma profissão aumenta continuamente. Por exemplo, um artigo no Washington Post, do 9 de Julho de 1985 por Laura Castaneda, escreve que a Directora da Fundação Americana de Análise da Escrita, Gloria Vadus, declara que a empresa de grafologia que ela tem viu um aumento de negócios com companhias a pedir análises grafológicas na ordem dos 305% em cada ano. Um outro artigo no Gannett News Service de 24 de Maio de 1988 por John Bacon, com o título "The Handwriting is on the wall for lie detector tests, and that may be good news for grafologists" indicou que a maioria dos altos executivos da Boyden International, uma empresa com escritórios em 15 cidades americanas e com presenças em 26 países, usa a grafologia como método para identificar pessoas com as mais altas capacidades gestoras.

Mas, este tipo de informação e o uso de grafologia por empresas, principalmente nos Estados Unidos da América, é normalmente informação classificada. È o caso indicado em um artigo no L.A. Daily News, de 4 de Maio de 1996, por Laurence Darmiento, com o título "Handwriting study without hocus-pocus: Employers use valencia analysis" onde se pode ler que os donos de empresas grafológicas em Los Angeles, EUA, relatam que a maioria das companhias que lhes pedem os seus serviços não gostam de admitir que usam grafologia na selecção dos seus empregados, pois consideram estes actos como as sua armas secretas "secret weapons" em identificar os seus melhores valores na empresa.

Conclusão

A pergunta que se pode pôr nesta altura é até que ponto um psicólogo, ou um outro profissional que trabalha com pessoas, pode considerar a grafologia como um teste indicativo das características da personalidade dos seres humanos? Esta pergunta é muito difícil de ter resposta pois o assunto que a grafologia estuda, as pessoas, são por si só muito complexas. Até hoje não existe nenhuma área da psicologia que pode dizer com uma certa confiança, que consegue estudar o ser humano em seu todo. Mesmo todos os testes psicológicos desenvolvidos até hoje ainda não conseguem identificar aspectos básicos de um indivíduo como por exemplo a inteligência ou o conhecimento. O que para um psicólogo pode ser importante no estudo de inteligência, para um outro com uma outra experiência de conhecimento já não pode ser considerado tão importante. Nesta perspectiva cito uma declaração dos psicólogos R. Guion e R. Gottiler, no Personnel Psychology, nº 18, em 1965 que disseram que perante os resultados que eles obtiveram na avaliação das validades dos testes de personalidade, é difícil declarar, com uma consciência clara, que é suficiente o uso de medidas da personalidade como base para uma decisão de escolha de indivíduos para um emprego. Mais recentemente Richard Stanley no The Times (Education), nº24, de 1995, declarou que especialistas em testes psicométricos apontam que a análise de testes pode dar resultados duvidosos se não forem administrados ou analisados por eles. No entanto a pergunta que o Stanley põem é até que ponto estes especialistas estão completamente seguros que as respostas que os sujeitos deram nesses testes não foram sabotadas por eles.

Lista de Tópicos