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Os Psicólogos nas Trincheiras

 

 

                        As funções dos psicólogos em zonas militarizadas estão, de dia para dia, a ganhar maior importância. Isto, em parte, é devido a um melhor conhecimento acerca dos aspectos que levam um ser humano a sentir-se angustiado, não por causa da violência ou mortandade, mas devido ao tempo, ao terreno ou às condições de vida dos locais quentes no mundo. Por exemplo, a unidade de Controlo de Stress de Combate (Combat Stress Control unit) do Exército Americano, que tem cerca de 40 psicólogos, e a da Força Aérea, com cerca de 35 psicólogos, viajam para zonas militares, como a Bósnia ou o Kosovo, para poderem ajudar os elementos das forças armadas a superar problemas de ansiedade devido ao tempo, como a chuva, a lama, que provocam condições pouco higiénicas, ou estados de tensão (stress) alta nos soldados devido a situações de pobreza local extrema. Como foi apontado por Kevin Mulligan (Rabasca, 2000), ‘ ... em vez de estar à espera de militares com problemas de desordens de stress pós-traumático virem ter connosco, psicólogos vão para as unidades e fazem trabalho de prevenção para ajudar [os militares] antes dos problemas se desencadearem’.

 

            A metodologia usada é a de tratar o stress de combate nos militares o mais próximo possível da linha de operações. Este tratamento é baseado em seis conceitos:

 

·        Brevidade: O tratamento é feito, normalmente, em períodos de 72 horas ou menos.

 

·        Iminência: Os militares recebem ajuda assim que sentem tremores, dores de cabeça e pesadelos.

 

·        Centralidade: O tratamento exige que os soldados retirados das zonas quentes sejam analisados num local central do qual podem regressar aos seus deveres se a evacuação destes for julgada inadequada.

 

·        Expectativa: Os soldados são pressupostos a regressarem aos seus deveres.

 

·        Proximidade: O tratamento é feito na linha da frente ou o mais próximo possível.

 

·        Simplicidade: Medidas comportamentais básicas como repouso, comida, higiene e confiança são dadas constantemente.

 

            Estes conceitos são baseados em conhecimentos derivados de experiências aprendidas na I e II Guerras Mundiais, assim como na Guerra da Coreia e na do Golfo.

 

            Eles derivam de conhecimentos obtidos das resenhas (debriefings) dadas pelos militares em situações de tensão, como a morte de um companheiro. Estas resenhas fazem com que os soldados falem acerca do que aconteceu, corrigir qualquer má concepção acerca do acontecimento, discutir lições aprendidas e descobrir como receber ajuda se sentirem perturbados ou ansiosos. Se estes não fazem este tipo de resenhas o mais rapidamente possível e no local, eles podem começar a engendrar mecanismos de defesa negativos que podem exacerbar o seu comportamento.

 

            Estes mecanismos de defesa são reacções normais e básicas que pessoas congeminam para se adaptarem a situações de tensão. Isto implica que o estudo acerca do desenvolvimento destes mecanismos de defesa é essencial pois podem explicar a génese de muitos problemas de saúde como problemas cardiovasculares ou de tensão alta.

 

 

                        Mecanismos de Defesa

 

            O conceito de mecanismo de defesa começou com S. Freud mas foi A. Freud (1946) que o estudou mais profundamente. Ela explicou que estes mecanismos são uma actividade mental, como seja a repressão de pensamentos, que tenta manter fora do consciente todos os pensamentos e afeições dolorosas.

 

            No entanto Holmes (1978), numa série de artigos bastante influentes, apontou que a maioria das memórias que eram atribuídas a estados de repressão podiam ser explicados através de diferenças de processos de atenção. Holmes adiantou também que a razão pela qual pessoas tinham dificuldades em perceber palavras tabu era devido a factores como a comprimento das palavras, a familiaridade destas e a sua rejeição social. A conclusão final tanto de Holmes como de outros psicólogos foi que a repressão, definida como um processo de defesa que acontece sem consciência, não existe. Isto fez com que nos fins dos anos 70 investigação sobre repressão e mecanismos de defesa tinham praticamente desaparecido.

 

            No entanto o conceito de mecanismo de defesa continuou a ser utilizado dentro da psicologia clínica particularmente dentro da avaliação da personalidade. Alguns testes foram feitos que reivindicavam ter a capacidade de medir defesas das pessoas mas a maioria deles, como o teste desenvolvido por Byrne (1961), apresentavam problemas psicométricos. Recentemente, Bond (1986) apresentou um teste novo chamado Questionário de Estilo de Defesa (Defense Style Questionnaire) que parece ter uma maior objectividade, validade e fidelidade.

 

            Portanto o problema básico dos estudos feitos nestes mecanismos de defesa é a não existência de cognição a nível do inconsciente.

 

 

                         A Cognição Inconsciente

 

            Mas recentemente psicólogos cognicistas redescobriram a existência de processos mentais inconscientes.

 

            Um deles, e talvez o mais influente, é Anthony Greenwald da Universidade de Washington. Em 1992 publicou um artigo que tem sido bastante influente na redescoberta da cognição inconsciente. Greenwald descreveu diversos processos mentais que podem influenciar este processo cognitivo, tais como a aprendizagem inconsciente, a activação subliminal, a memória implícita e a atenção selectiva.

 

            Para ele cognição inconsciente é toda a situação em que uma pessoa não está ciente de (unaware of) e existem dois tipos:

 

a)     Fora da atenção – Quando uma pessoa não está ciente dos estímulos que chegam aos nossos sentidos devido à nossa não orientação da atenção para esses estímulos.

 

b)     Inabilidade de fazer introspecção – Quando uma pessoa não consegue descrever conscientemente causas, actividade, ocorrências, eventos ou actuações. A maioria dos estudos feitos neste contexto envolve a medição da incapacidade que uma pessoa tem quando não se lembra de eventos que sabemos que ela prestou atenção.

 

Em ambas situações a atenção têm uma função essencial pois faz parte de uma construção teórica muito importante na psicologia cognitiva chamada Processamento de Informação (Broadbent, 1958). Esta construção teórica tem por base a ideia que a cognição é uma série de transformações entre o estímulo e as respostas internas dos seres (Smith, 1968).

 

O tipo de atenção que o ser faz em relação ao estímulo é essencial na maneira como o estímulo é processado. Greenwald aponta duas consequências da atenção inconsciente: o da activação da cognição inconsciente e a instalação de memórias inconscientes.

 

            Mas voltando ao assunto deste pequeno artigo, o stress de combate, podemos ver a razão de colocar psicólogos em zonas quentes. Só assim os soldados podem reprocessar rapidamente a informação que receberam da sua orientação da atenção, em vez de deixá-los cogitar estados de auto-decepção ou de repressão. A auto-decepção, no contexto da cognição inconsciente, refere-se ao evitar uma análise cognitiva de uma situação ameaçadora sabendo de antemão qual vai ser a ameaça, e a repressão são traços de memória de acontecimentos atendidos mas que não são evocados facilmente. Durante as resenhas, os soldados descrevem o que viram, cheiraram ou sentiram durante momentos críticos, e fazendo isto eliminam estados repressivos e/ou de auto-decepção das situações que já foram expostos e ao mesmo tempo preparam-se para futuros traumas antes deles acontecerem com o resultado de atenuar o seu stress de combate.

 

            Os dados obtidos pela Unidade de Controlo de Stress de Combate mostram que cerca de 70 a 90% dos soldados que visitam os psicólogos nas zonas de acção retornam às suas funções ao fim de poucos dias.

 

            Falta agora saber se o mesmo tipo de ajuda é dado aos soldados portugueses quando se encontram em zonas quentes como em Timor.

 

 

                        Bibliografia

 

Bond, M. P., 1986. ‘Defense Style Questionnaire’, em G. E. Vaillant (Ed), ‘Empirical studies of ego mechanisms of defense’, Washington: American Psychiatric Press.

 

Broadbent, D. E., 1958. ‘Perception and Comunication’, London: Pergamon Press.

 

Byrne, D., 1961. ‘The Repression-Sensitization Scale: Rationale, reliability and validity’, Journal of Personality, 29, 334-349.

 

Freud, A., 1946. ‘The ego and the mechanisms of defense’, New York: International Universities Press.

 

Greenwald, A. G., 1992. ‘Unconscious cognition reclaimed’, American Psychologist, 47, 766-779.

 

Holmes, D. S., 1978. ‘Projection as a defense mechanism’, Psychological Bulletin, 85, 677-653.

 

Rabasca, L., 2000. ‘More Psychologists in the trenches’, Monitor on Psychology, Vol.31(6), 50-51.

 

Smith, E. E., 1968. ‘Choice reaction time: An analysis of the major theoretical positions’, Psychological Bulletin, 69, 77-110.

 

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