A ciência, e
particularmente a Ciência Cognitiva, reconhece que o cérebro e todas as suas
estruturas são a base de todo processamento de sensações, cognições,
sentimentos e movimentos. Este processamento é feito, na maioria dos casos, sem
qualquer interferência do ser humano. No entanto, em certas situações, tais
como a aceleração do bater do coração, o aumento da humidade nas mãos ou testa,
o enrijamento dos músculos, o elevado estado de concentração, as reacções do
sistema fisiológico são tão flagrantes que ficamos conscientes de que o nosso
corpo está a reagir ao que está acontecer à nossa volta ou ao que estamos a
pensar. A maneira como estas reacções fisiológicas são feitas é comum em todos
os seres humanos, o que é diferente é a forma como são activados. Esta, na
maioria dos casos, é dependente do modo como interpretamos tudo aquilo que
apercebemos à nossa volta ou o que nos vai na alma. É esta individualização do
modo como processamos informação que faz com que o estudo dos processos
psicofisiológicos é difícil de analisar pois o que pode parecer tenebroso para
alguns para outros é engraçado ou satisfatório. A questão que então se põem é
saber se a actividade, mental ou comportamental, é aceitável à sociedade onde
esse indivíduo vive, pois só assim o psicofisiologista pode saber o que fazer
caso a maneira como a pessoa reage poder ser considerada disfuncional ou não.
É
sabido que o corpo humano é composto de diversos sistemas: nervoso,
gastrointestinal, circulatório, respiratório, tegumentório, muscular, urinário,
endócrino, imune, esquelético, reprodutor e outros. Mas aquele que tem por
função a coordenação de quase todos os outros é o sistema nervoso, pois se o
corpo sai fora do seu estado homeostático, ele é, por norma, o primeiro a
tentar corrigir o que está errado pois este pode desenvolver problemas difíceis
de concertar particularmente se o problema envolve o cérebro. Como foi apontado
por Clarke e Sokoloff (1994) o cérebro é um dos primeiros órgãos que pode ser
deteriorado quando existe uma perca acentuada de oxigénio ou glucose, um
aumento grande de calor ou de um desequilíbrio do nível pH. Portanto o cérebro
é não só o controlador do bom funcionamento do corpo como também depende deste
para o ser humano poder funcionar tanto quanto se pode desejar. Isto implica
que os processos cognitivos e os do corpo interactuam directamente pois uma
condição física anormal pode alterar significativamente o que pensamos, o que
fazemos ou o que podemos fazer. A Psicofisiologia permite por assim dizer
compreender o entendimento entre o cérebro e o corpo humano, usando processos
cognitivos como mecanismos para identificar a relação entre estas duas partes.
Na
generalidade quase todas as actividades do corpo humano podem ser analisados
pela psicofisiologia. Isto dá a possibilidade de se poder notar a maneira como
as pessoas respondem a acontecimentos. Uma possível consequência deste
entendimento é que num futuro muito próximo talvez possamos saber, mesmo a
nível individual, tudo acerca da maneira como o cérebro processa informação
externa (visão, audição, e outros) ou interna (pensamentos, ideias, imagens,
visões, sonhos, e assim por diante).
Para
se poder entender o que é a Psicofisiologia é essencial não só ler e saber
acerca dos diversos sistemas fisiológicos do ser humano mas também é
preponderante que o que a estuda/usa veja a maneira como o sistema fisiológico
reage a eventos ou estímulos. O ensino da Psicofisiologia sem mostragem destas
reacções é deficiente e sem qualidade. Logo, um curso de Psicologia que tenha
por componente a Psicofisiologia tem por obrigação de ter um período de ensino
prático. O problema é que hoje em Portugal é muito raro encontrar instrução
experimentada da Psicofisiologia nas Licenciaturas de Psicologia. Até quando?
Metodologia
Para
se captar dados psicofisiológicos usam-se toda uma série de equipamento
simples e já conhecido do público em geral como a Electroencefalografia (EEG), a Electromiografia (EMG), o Electrocardiograma (ECG) ou a Actividade Electrodérmica (AED)
ao mais complexo como a actividade de Potenciais de Eventos Relacionados (PER),
a Tomografia por Emissão de Positrões (TEP), a Representação funcional por
Ressonância Magnética (RfRM), a Imagem Óptica (IO) (Fabiani et al, 1996)
ou a Magnetoencefalografia (MEG). A introdução de sistemas informáticos
e de novas tecnologias na Psicofisiologia fez com que hoje seja possível
analisar actividades cerebrais que até pouco tempo eram consideradas
imensuráveis como por exemplo ‘ver’ o que o cérebro faz quando se aprende ou
executa um movimento (Jueptner e Weiller, 1998), ou quando se processa cores
numa pintura (Zeki e Marini, 1998) ou quando as pessoas estão a fazer testes
psicotécnicos para identificar o seu QI (Quociente de Inteligência) (Duncan et
al, 2000), ou quando se está a analisar a capacidade da memória das pessoas
(Frey e Petrides, 2000), ou mesmo quando uma pessoa pensa de uma cara ou de um
lugar. Outras técnicas menos usadas na Psicofisiologia são a Pupilametria, que
como o nome indica mede o diâmetro da pupila em relação a certos comportamentos
cognitivos como a atenção (Beatty, 1982) e a Pletismografia que mede a
abundância/volume da circulação do sangue em certas partes do corpo como por
exemplo nos órgãos sexuais (Levin, 1998; Richards, et al 1990). Em
Portugal, neste momento, as metodologias mais usados na prática/ensino da
Psicofisiologia são o EEG, o EMG, o AED e o ECG. Isto talvez devido ao facto
que a única literatura em língua portuguesa que ainda é usada em Portugal no
ensino da Psicofisiologia ter sido publicada em 1984 por R. F. Thompson. Isto
faz com que o ensino e/ou treino da Psicofisiologia que hoje se faz em alguns
sítios tenha um atraso de 17 anos (tendo em consideração a publicação deste
artigo = 02/2001) em relação ao que se faz em países de expressão
anglo-saxónica onde não só existem vários jornais científicos acerca deste
assunto como existem grupos profissionais/científicos como a Society for Psychophysiological Research
(SPR).
A análise dos Potenciais de Eventos
Relacionados (PER) (em Inglês = Event-Related Potencials ou ERPs) é uma técnica
nova, que identifica aspectos específicos do EEG e que envolve o uso de
sistemas informáticos. Para aqueles que querem aprofundar o conhecimento sobre
esta técnica devem consultar a literatura publicada por Donchin (1979). Uma
explicação muito breve do PER é que ele é uma manifestação no EEG de actividades cerebrais que
acontecem quando uma pessoa se prepara ou responde a acontecimentos
exclusivamente cognitivos ou ambientais. Portanto, são manifestações puramente
do foro psicológico, como por exemplo atenção, memória, plasticidade
neurológica e outros (Rugg e Coles, 1995). Os PERs que derivam do processamento
cortical tendo por base acontecimentos (estímulos) exteriores são chamados
Exógenos, aqueles PERs que resultam de processamento cortical sem a intromissão
de estímulos exteriores são Endógenos.
De acordo com Vaughan (1969) existem
quatro tipos de PERs: os Potenciais Evocados Sensoriais (PES), que como o nome
indica são basicamente o produto de estímulos visuais, auditivos, olfactivos ou
somatológicos; os Potenciais Motores (PM) que antecedem e acompanham movimentos
voluntários; os Potenciais de Longa Mora (PLM) que visam todos os componentes
positivos ou negativos do PER e que acontecem depois de um intervalo de 250 e
acabam ao fim de 550 milissegundos. Estes mostram respostas corticais
subjectivas provenientes de estímulos esperados ou inesperados. Por último os
Potenciais de Mudanças Continuadas (PMC) que foram descobertos por Walter et
al (1964) e aos quais chamou Variações de Contingentes Negativos (VCN).
Estes podem-se observar em situações nas quais as pessoas são avisadas para
responder a um acontecimento algum tempo depois de terem recebido um sinal de
aviso. Por exemplo uma pessoa recebe um sinal sonoro e passado algum tempo tem
que carregar um botão assim que vê uma luz.
O EEG que hoje se usa para se
poder identificar os PERs tem um maior número de eléctrodos, na ordem dos 128 a
256 (Tucker, 1993), do que se usava antigamente (16 eléctrodos). Isto faz com
que a analise seja mais precisa em relatar o que o cérebro faz quando processa
informação ao ponto de agora se poder construir mapas cerebrais em 3-dimensões
dos originadores dos PERs (Perrin et al, 1987). No entanto, e na maioria
dos casos, ainda se usa o Sistema Internacional (SI) 10-20 de 16 eléctrodos. Em
alguns casos o EEG é gravado
em fita magnética e depois analisado por um computador. Mas, devido à rapidez
dos sistemas informáticos que hoje se podem adquirir, o sinal do EEG é digitalizado em tempo real
e analisado por meio de uma técnica de médias. Por exemplo, se quisermos
analisar PESs visuais, colocamos eléctrodos na posição O1 e O2
(do SI 10-20) no crânio. Depois, apresentamos uma série de estímulos visuais,
como uma base quadricular de quadrados brancos e negros, a intervalos certos e durante
um certo período de tempo. Sempre que a base quadricular é apresentada, um
segmento do EEG é
digitalizado para dentro da memória do computador e os pontos digitais da onda
deste segmento do EEG é
somada aos pontos dos segmentos que já estão na memória do computador. Ao fim
do período do tempo total da experiência faz-se uma média de todos os pontos
digitalizados. Isto resulta numa curva PER que contêm todas as suas
componentes. Os picos positivos e negativos da onda PER podem ser definidos
como sendo aspectos do PER relacionados com a) as localizações do SI 10-20, b)
relacionados com as estruturas neurológicas do cérebro (Fabiani et al,
1987) e c) serem usados em associação com o TEP, o RfRM, o MEG e o IO. Isto
resulta numa melhor quantificação e identificação das diversas estruturas
cerebrais que estão em actuação durante o processamento da informação dos
diversos estímulos ou actividades cognitivas.
O princípio e o uso do MEG são muito
parecidos com o que se faz no EEG,
mas com a diferença de que o MEG mede a actividade magnética das células nervosas
do cérebro. Isto faz com que os problemas que encontramos no EEG, tais como as percas de
resolução e qualidade eléctrica da actividade encefálica devido à espessura ou
a forma do osso craniano, ou ao campo de resolução da actividade cerebral ser
mais larga no EEG, ou aos
eléctrodos serem fixados no couro cabeludo, ou também devido ao facto que o MEG
não necessita de eléctrodos de referencia e portanto mais ser mais fácil e
precisa a identificação da origem da actividade cerebral, seja mais afectado
por medidas parasitas do que o MEG.
A Tomografia por Emissão de Positrões
(TEP) assim como a Representação funcional por Ressonância Magnética (RfRM) são
técnicas muito novas mas que no entanto já estão a prover dados acerca da
maneira como o cérebro processa o comportamento e toda uma série de informação
impossível de se ver até agora.
O TEP é usado no estudo das funções do
cérebro que actuam principalmente no desenvolvimento dos seres humanos, no seu
envelhecimento, nas consequências de acidentes cerebrais, e no tratamento e
diagnose de comportamentos disfuncionais tanto no foro mental como físico. Esta
técnica, desenvolvida nos anos 70, deve-se à descoberta de radiotraçadores de
vida curta, como o O15 (com uma vida de 2 minutos), o N13
(com uma vida de 10 minutos), o C11 (com uma vida de 20 minutos), e
o F18 (com uma vida de 110 minutos), que possibilita a observação de
actividades cerebrais de curta duração em pessoas intactas e vivas. Como o
Oxigénio, o Nitrogénio e o Carbono (assim como o Fluorídico - um composto de
Flúor e Hidrogénio) são parte integrante do corpo humano, estes elementos
podem-se misturar com fármacos ou outras substâncias radioquímicas (como o
Butanol, ou a Água) para assim podermos identificar o local de actuação destes
produtos no sistema fisiológico.
Estas substâncias são sintetizadas por
meio de aceleradores de partículas (em Inglês = Cyclotron), que as
irradia de protões e deuterões, e que depois de purificadas ou são injectadas
ou inaladas por pessoas. Os radiotraçadores enfraquecem porque emitem
positrões, que são electrões instáveis, escassos em neutrões, com uma carga
positiva, que não se movimentam muito e que quando encontram electrões
negativos ‘explodem’. Quando isto acontece, as suas massas convertem-se em
fotões de alta energia (Raios Gama) que se propagam em direcções opostas (180º)
ao movimento inicial. Isto faz com que este novo movimento possa ser detectado
por aparelhos que permitem identificar o local onde existe um maior número de
‘explosões’ e assim localizar a área cerebral com maior concentração de
radiotraçadores, que na maioria dos casos é a área que esta a ser usada para
executar o comportamento em causa. O radiotraçador O15-Água é o mais
usado no estudo de actividades cerebrais. No entanto devido ao facto que esta
substância tem uma certa dificuldade em passar a barreira hematoencefálica, em
situações onde se requerer uma alta absorção do radiotraçador pelo cérebro,
usa-se o O15-Butanol. No entanto o O15-Água é mais fácil
de se adquirir e relativamente menos dispendioso, pois trabalhos que usam a
técnica do TEP são altamente onerosos e precisam de equipas de especialistas
tais como físicos, neurologistas, informáticos, psicólogos e outros. Os estudos
que usam o radiotraçador O15-Água investigam áreas cerebrais que
controlam comportamentos humanos como o controle motor, a atenção, a percepção,
a memória, as emoções, a linguagem, a imaginação, o sono, e alguns
comportamentos disfuncionais tais como ataques de pânico ou ansiedade.
Presentemente o TEP está a ser usado no estudo de comportamentos bastante mais
complexos como a aprendizagem (Savage et al, 2001), que faz com que esta
tecnologia possa mostrar dentro em breve mostrar todos os segredos que o
cérebro ainda têm para nos dar. Em parte devido à descoberta de novos
radiotraçadores tais como a sintetização de substâncias que o próprio cérebro
usa como a serotonina ou a dopamina, ou de aminoácidos usados por tumores
cerebrais. Portanto, o uso esta técnica em pessoas com enfermidades ou intactos
só pode ser limitada ou por causa do seu uso ser acima das posses económicas do
país em causa, ou então do pouco conhecimento que se tem acerca dela.
Em relação à Representação funcional por
Ressonância Magnética (RfRM), pode-se dizer que algumas das suas desvantagens
em relação ao TEP, é de ser muito mais afectado por variáveis parasitas como
movimentos da cabeça, de não se poder apresentar estímulos a todos os sensos
humanos (visual, auditivo, tacto, gustativo e o olfacto), de a sua análise ser
muito mais complexa, de não se poder actuar/falar com o participante, de não se
poder fazer em conjunto outras medidas psicofisiológicas como o EEG/PER, ECG, EMG ou o AED, e de não se poder fazer análises
em todo o cérebro (o RfEM tem alguma dificuldade em analisar certas partes
cerebrais localizadas no lobo frontal). No entanto o RfRM em relação ao TEP tem
a vantagem do custo do seu uso ser menor, a resolução espacial (a espessura de
cada fatia cerebral = voxels) ser superior (no RfRM = 1mm; no TEP = de 3 a 15 mm), não
haver problemas de radiação se utilizarmos o mesmo participante muitas vezes,
de ser possível fazer estudos relacionados com eventos cerebrais pequenos (RfEM
= 30 mseg, no TEP = 100 mseg), e de ser possível fazerem-se estudos de caso.
Um dos primeiros estudos que usou o RfRM
foi feito em 1991 por Belliveau et al e foi publicado no jornal Science.
Quer dizer que esta técnica é relativamente nova e é um desenvolvimento da
Tomografia por Ressonância Magnética (TRM) já usada em alguns laboratórios no
país. O TRM é baseado na ideia de que átomos do corpo humano se orientam ou
paralelamente ou em 180º em relação a um campo magnético. Este campo, gerado
por um sistema de magnetos num estado de supercondutividade e que pode variar
entre 0,5 a 3 Teslas, é equivalente a 10 - 60 mil vezes mais forte do que o
campo magnético da Terra. O principal objectivo do TRM é medir a distribuição
magnética dentro do corpo. Este é feito de biliões de átomos que giram e se
movimentam aleatoriamente. Um dos átomos mais abundantes no corpo humano é o
hidrogénio que tem um protão e um electrão e um largo momento magnético. Este
não é mais do que a facilidade que os átomos de hidrogénio têm em se alinharem quando
são colocados dentro de um campo magnético. Isto implica que quando um corpo
humano entra dentro de um TRM os magnetos alinham os átomos a girarem e a
bambolearem de uma certa maneira, também chamada a precessão. Logo após este
alinhamento uma onda de uma certa frequência, gerada por uma bobine (que em
TRMs que produzem imagens em 3D têm bobines gradientes nos três planos) ligada
a um transmissor de rádio, produz um pulso que faz com que os átomos na parte
do corpo humano que se quer analisar comecem a girar e a precessar de acordo
com essa frequência, também chamada a frequência de Larmour. A introdução do
pulso no TRM chama-se Ressonância. A frequência da Ressonância é calculada
tendo por base o tipo de tecido humano que se está a observar e a potência do
campo magnético. Geralmente cada TRM tem três bobines gradientes que estão
posicionados de uma certa maneira e que quando são ligadas e desligadas
rapidamente alteram o campo magnético numa área do corpo humano muito pequena.
A imagem dessa parte (o voxel) é obtida através da medição do
tempo que a energia electromagnética dos protões de hidrogénio tomam em voltarem a girar como antes de terem recebido o pulso – tempo de relaxamento (T1).
A medição deste tempo é feita em certos intervalos (TR). Quanto mais
pequeno for este intervalo melhor é a resolução da imagem. Uma outra medida que
também se tira é o T2, que é usada principalmente no RfRM. Esta
refere-se ao tempo de abatimento da potência do pulso e à perca da coerência do
giro dos protões. Toda esta informação vai para um computador gráfico que
usando programas dedicados (como o Fast Fourier Transformation - FFT) traduz os
dados obtidos de cada pulso numa imagem.
O sangue, sendo uma substância rica em
átomos de hidrogénio, é um óptimo candidato para TRM. Portanto, pode-se medir
não só o tempo de relaxamento dos giros dos átomos (e assim mostrar as diversas
partes do encéfalo), assim como o movimento do sangue. Mas em relação ao
cérebro o que é também importante avaliar é o seu volume sanguíneo pois este
altera-se devido às mudanças da oxigenação do sangue quando pessoas processam
estímulos internos (pensamentos, ideias, imagens) ou externos (activação de
sensores). Isto é o que o RfRM faz, pois consegue identificar o tipo de
glóbulos vermelhos no cérebro. Esta técnica, chamada a Dependência do Nível
de
Oxigénio no Sangue (DNOS) [em inglês = Blood Oxygenation Level Dependent
(BOLD], apresentada por Ogawa et al (1992), identifica a intensidade do sinal
obtido pelo TRM devido à quantia do oxigénio na hemoglobina dos glóbulos
vermelhos e do volume sanguíneo nas veias e capilares do cérebro. Estas
mudanças do sinal podem ser usadas para medir, indirectamente, as mudanças do
volume sanguíneo em locais específicos no cérebro. Portanto quando um ser
humano processa um estímulo, uma área cerebral entra em actuação. Isto faz com
que o volume sanguíneo nessa área aumente com um maior número de glóbulos
vermelhos com oxigénio (os oxiemoglobinas), e uma redução no número de glóbulos
vermelhos com menos quantia de oxigénio (os deoxiemoglobinas), e o resultado
disto é que o sinal captado pelos sensores no TRM aumenta. Em prática, quando
se quer fazer um RfRM de um processo mental, primeiro tiram-se um conjunto de imagens
da área encefálica com interesse em repouso. Depois tiram-se um outro
conjunto de imagens durante a execução do acto mental. Estes dois conjuntos de
imagens são então subtraídas umas das outras que resultam em imagens com partes
cerebrais mais brilhantes que outras, e assim podem-se expor as partes cerebrais
que estão a processar o estímulo, em relação a outras que se encontram em
repouso (Bandetti et al, 1993). No entanto, devido ao facto que o RfRM é uma
metodologia bastante complexa, sofisticada, muito nova e que não pode ser usada
em pessoas que tenham peças metálicas no corpo (e deixou o autor deste artigo com
alguma dor de cabeça depois do seu uso) é ainda pouco usada em investigação que
envolve o estudo do cérebro humano. Isto não implica que possa ser usado no
estudo de outros órgãos e partes do corpo humano como o coração, os pulmões, o
sistema digestivo, os rins, o pescoço, os músculos e as articulações que são
cada vez mais correntes.
Portanto
são estas novas tecnologias que conseguem que a Psicofisiologia seja, em cada
dia que passa, mais usada no estudo da relação do corpo com a mente. Esta
relação faz com que se consiga não só uma maior compreensão da maneira como o
corpo humano reage a acontecimentos, mas também reconhecer que o seu uso seja
considerado também como uma metodologia bastante poderosa na reabilitação de
condições físicas como traumas ou disfunções.
Utilização
A Psicofisiologia tem sido usada nos mais
variados campos e áreas. Desde o estudo de psicopatologias de perturbações
mentais ao desenvolvimento de sistemas de diversão. Isto implica que o limite
da sua utilização é dependente da criatividade do ser humano.
Em relação à área da saúde a
Psicofisiologia concentra-se principalmente na:
·
na identificação e manejo de ansiedades (stress) ou pânico,
·
no estudo e correcção de estados emocionais (com todos os seus
problemas não só em termos de definição como na maneira como são processados),
·
nos problemas do sono:
o
insónia
o
apneia
·
na identificação de comportamentos excessivos:
o
extrovertidos
o
introvertidos,
o
impulsos,
o
agitações,
o
sossegos,
·
na identificação e possível método terapêutico de psicopatologias:
o
a esquizofrenia,
o
a depressão,
o
as manias e/ou fobias,
o
os comportamentos anti-sociais como:
§
a agressão,
§
a demência,
§
a insensatez,
o
a hiperactividade (via o EEG Quantitativo [EEGQ]),
o
o autismo,
·
no processo do envelhecimento com a análise:
o
do declino de condução do sistema nervoso,
o
do declino do volume/perfusão sanguínea,
o
do declino da capacidade máxima do ar,
o
do declino da força muscular,
o
no aumento da pressão sanguínea,
o
no aumento da resistência do sistema vascular,
·
na identificação e controlo da hipertensão,
·
na mitigação da:
o
dor crónica (via estimulação eléctrica de nervos tanscutâneos
[EENT]),
o
asma (via métodos de relaxação [MR] e consumo do O2
[CO]),
o
epilepsia (via o EEG),
o
reumatismo (via o MR, EMG
e temperatura cutânea [TC]),
o
enxaqueca (via o EMG,
TC e MR),
o
hiper-ventilação (via MR, e CA),
·
na reabilitação de:
o
anomalias,
o
traumas físicos,
o
doenças de ansiedade pós-trauma (DAPT),
o
incontinências,
o
ofensas traumáticas cerebrais (OTC),
o
acidentes vasculares cerebrais (AVC)
entre outros.
Conclusão
Entre
1990 e 2000 foi a Década do Cérebro. Durante estes dez anos o nosso cérebro
começou a revelar alguns dos seus mais profundos segredos. Conseguiu-se
descobrir como o cérebro processa as nossas emoções, as nossas percepções, os
nossos actos motores e intenções, e o que ele faz antes de se começar a falar,
olhar e até mesmo pensar. No entanto é preciso reconhecer que a nossa maneira
de ser pode ser influenciada por um coração que bate com alguma dificuldade e
também pela maneira como desenvolvemos a nível cognitivo. Como já foi apontado,
o cérebro modera o corpo assim como este modera a cérebro. A Psicofisiologia é
uma técnica que pode parecer como sendo uma janela da ligação entre mente e o
nosso corpo. Esta por si só não resolve os problemas desta relação. Pode sim
dar-nos resultados mais precisos da nossa actividade física em certas situações
e de uma maneira ainda muito primitiva mostrar a complexidade desta relação.
Este artigo é uma apresentação muito breve
acerca das novas técnicas que psicofisiologistas andam agora a usar para
poderem indagar ainda mais a relação corpo e mente. O que se está a descobrir é
que esta tem a capacidade não só de se auto-destruir mas também de se
auto-compôr. Tudo depende do que o ser humano quer fazer não só de si próprio
mas também da relação que tem com a sociedade ou o ambiente em que vive. Tem
que se reconhecer que esta ainda tem muitos segredos e que estas novas
tecnologias ainda talvez não consigam descobrir o que se passa entre o corpo e
certas partes da mente. Por isso devemos de estar continuamente a par não só do
que se está a fazer nesta área mas também de se começar a investir seriamente
na sua prática tanto a nível de cuidados do ser humano como a nível de
investigação. Para isso acontecer existe uma necessidade cada vez mais premente
de se desenvolverem laboratórios em institutos, centros de saúde, hospitais,
universidades e outros para se poder formar uma massa crítica e recursos
humanos suficientes para se dar aos utentes de cuidados de saúde, de mercancia
e de entretimento o benefício deste novo conhecimento. Espera-se que este
escrito seja mais um ‘tijolo’ nesse grande e importante assunto que é a
Psicofisiologia.
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